Peleando contra o Poder

2/1/2010

O Magistrado, a Psiquiatra e o guri do crack

Arquivado sob: — admin @ 10:54 am

Era impossível: tinha que se tomar uma medida mais drástica pra solucionar o problema.
O guri, com apenas 10 anos, colocava em risco os demais.
O crack tinha tomado conta do piá.
A solução, informaram ao juiz, era enviá-lo para uma clínica em Novo Hamburgo, que estaria conseguindo tratar e recuperar casos semelhantes.

O juiz não gostou da idéia: o guri era de São Borja e seria tratado em Novo Hamburgo, longe da família?
Não gostou da idéia, mas não havia outra melhor.
A contragosto, aceitou a sugestão.
Mas… tinha um problema.
Sempre tem.
Ou o guri viajava sedado, ou amarrado.
Não tinha outro jeito.
Com o peito apertado, fez a escolha menos drástica.
Mas continuou com o peito apertado.

Ao chegar em Novo Hamburgo, outro problema.
A situação do piá era pior do que eles imaginavam.
Não queriam receber o guri.

Apesar disso, receberam, depois de muita conversa.
Mas… não adiantou nada.
O guri fugiu no primeiro dia.

O juiz ficou com o peito mais apertado ainda.
Decidiu viajar pra ajudar a encontrar o guri.

Quando já estava com o pé no estribo, chegou a notícia.
Tinham achado o piá - pedindo esmola pra comprar a passagem pra voltar pros pagos de São Borja.

O juiz, então, decidiu: vamos tratar esse guri aqui mesmo.
De São Borja, ele não sai de novo.
Em conversa com a única psiquiatra de São Borja ficou acertado que o tratamento seria ambulatorial.

Na primeira charla com a psiquiatra, ela pergunta pro guri:
- O que tu mais quer na tua vida?
- Um revólver.
- Um revólver??? Pra quê?
- Porque quando eu ser grande eu vou ser chefe de uma favela.

Duas semanas depois, ela liga pro juiz.
Explica que faltava a figura paterna na vida do piá.
E pergunta se ele aceitaria conversar com o guri, pra ver se ele criava algum vínculo com essa figura.
O juiz atendeu o telefone dois minutos antes de uma audiência começar.
Mas não teve dúvida.
Respondeu:
- Já estou indo.
E disse pros advogados e partes:
- Não me levem a mal. Vou ter que atrasar um pouco a audiência. É um caso sério e importante de um menor. É mais importante que esta audiência.
Todos concordaram - sabem que ele não atrasa audiência.

Algumas semanas depois, a psiquiatra liga pro juiz:
- Dr., o senhor não vai acreditar.
- O que houve, Dra.?
- O guri não quer mais revólver, nem ser chefe de favela.
- Bah… que surpresa. O que ele disse?
- Ele quer ser juiz, que nem o senhor.

Newton Fabrício
Obs: o juiz que virou amigo do guri e livrou ele do crack é o Maurício Ramires.
Um verdadeiro Magistrado - humano, dedicado, culto e idealista.
O meu respeito, Maurício.
Um baita abraço, Magistrado.

Obs 2: a psiquiatra que, com carinho e competência profissional, atendeu o guri é a Dra. Ivete Blanco.
Não a conheço.
Mas já a admiro.
O meu respeito, Dra. Ivete.
Um grande abraço.

8 Comentários »

  1. O DR. Maurício e a Dra. Ivete mostraram estar bem conscientes da falta que sentem os jovens de hoje de figuras paternas. A estrutura familiar monoparental (em geral composta só pela mãe), imposta pelas estruturas econômicas da sociedade moderna ( que sendo moderna não é critério de excelência na criação de filhos)subtrae das crianças um m odelo paterno capaz de lhes imprimir parâmetros de conduta pessoal e social que os salvaguarde e os proteja desse emaranhado de apêlos midiáticos tão esquisofrênicos quanto avassaladores.Sob o domínio total e totalitário dos meios de comunicação, podemos dizer que nós não mais pensamos, eles , os meios, nos pensam.
    E se os jovens não mais dispoem de um norteador paterno que lhes forneça orientaçao e afeto,eles serão pensados por entidades que têm todos os interesses menos o de educá-los pára a família, para a sociedade , para um mundo solidário e justo.
    Franklin Cunha

    Comment por Franklin Cunha — 4/1/2010 @ 7:53 pm

  2. Bela história..belíssimos seres humanos; Parabéns!
    Um abraço!

    Comment por Mara faturi — 8/1/2010 @ 7:08 am

  3. Morar fora tem muitas vantagens, isso eh inegavel. No entanto, eh dificil encontrar outro lugar no mundo onde se encontre tanto amor ao proximo como se ve no Brasil. Isso eh uma das coisas que mais fazem falta para um “desgarado". Eh uma pena que a situacao no Brasil esteja tao fora de controle. Porem, sao exemplos como esse que fazem acreditar que o futuro sera melhor.
    Dr., abraco e obrigado por tudo.

    Thomaz Araujo
    Halifax - Canada.

    Comment por Thomaz — 28/2/2010 @ 3:21 am

  4. INICIALMENTE QUERO PARABENIZAR A NEWTON FABRÍCIO PELO MARAVILHOSO E CATIVANTE TEXTO QUE NARRA A HISTÓRIA DO JUIZ E O GURI, VC ESCREVE DE UMA FORMA BELA E ÚNICA.

    CONTINUANDO QUERO REGISTRAR O ORGULHO QUE SINTO EM SER TIA DESTA FIGURA MAGNÍFICA, QUE É MEU AMADO SOBRINHO, MAURÍCIO RAMIRES. GURI ESTE QUE SEMPRE FOI UM DESTAQUE EM TUDO QUE SE PROPOS A REALIZAR LOGO, COMO MAGISTRADO NÃO SERIA DIFERENTE, COMO NARRA A HISTÓRIA, ELE É UM GRANDE PROFISSIONAL, MAS ANTES DE TUDO É UM SER HUMANO HUMILDE E EXEMPLAR.
    ENCERRANDO, AFIRMO QUE COM TODA CERTERZA AINDA OUVIREMOS FALAR MUITO E MUITO BEM DA FIGURAÇA QUE NA PIA BATISMAL RECEBEU O NOME DE MAURÍCIO RAMIRES.

    ALDENES RAMIRES ROCHA

    Comment por ALDENES RAMIRES ROCHA — 16/11/2010 @ 8:59 am

  5. Sra. Aldenes:

    O Maurício Ramires merece esse reconhecimento.
    Ele é assim mesmo.
    Quanto à história, eu apenas a transcrevi como me contaram.
    Um grande abraço.

    Newton Fabrício

    Comment por Newton Fabrício — 16/11/2010 @ 12:40 pm

  6. Conheço o Maurício desde criança. Há mais de trinta anos, aproximadamente. Há uns 15 ou 20 anos, além de meros conhecidos, passamos a ser bons amigos (um dos melhores que tenho). Acho que idealismo e amor pela profissão é que descrevem da melhor forma possível o Maurício. Por isso, não me supreende em nada que ele tenha conseguido fazer com que o “guri” mudasse de idéia. Na verdade, ele já fez muita gente mudar de idéia. Texto muito bem redigido Newton. Abraços.

    Comment por Juliano Lago Sebben — 8/8/2011 @ 3:39 pm

  7. Parabens por acreditar nas pessoas sao de pessoas assim que o mundo precisa de que acreditam na recuparaçao das pessoas que acreditam que as pessoas podem ter uma segunda chance e fazer tudo certo tudo melhor para que um dia as pessoas possam viver melhor

    Comment por Alex proença Rodrigues — 31/7/2012 @ 5:45 pm

  8. O mundo precisa de mais pessoas com atitude como a do DR. Maurício e a Dra. Ivete, o crack vem destruindo as famílias, o crack é uma doença que tem cura só basta ajudar eu mesmo fui uma vita desta doença e hoje sou voluntario em uma comunidade terapêutica ajudo outras pessos a se livrarem dessa doença que adoecê toda a familia e todos que de uma forma ou outra fazem da vida do doente inclusive a sociedade.
    Parabéns DR. Maurício e a Dra. Ivete.

    Comment por Edemilson Roque Costa — 20/11/2013 @ 5:47 pm

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